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segunda-feira, março 17, 2014

domingo, março 02, 2014

Livro | A Última Dor - Capitulo 3



Todos os capítulos estão nesse link



Meu sonho foi estranho... Começou tão agradável...! Estávamos em uma praia de Copacabana, meus pais e eu. Todos felizes e sorrindo. Meu pai estava cantando a “minha música”, no meu coração você sempre vai estar de Ed Motta – desde pequena ele a cantava para mim na hora de dormir. O dia estava lindo e ensolarado, todos estavam alegres e de repente uma tempestade se aproximou bruscamente da praia. Minha família estava alguns passos na minha frente. Corri até eles, mas eu nunca chegava. Eu gritava, gritava, mas eles não ouviam. Corri mais, o mais rápido que pude. Eu estava com medo. A tempestade estava feroz. As árvores na encosta da praia foram arrancadas. O mar estava violento... Finalmente eu os alcancei. Coloquei a mão no ombro do meu pai e o virei, mas já não era o meu pai de antes. Agora ele estava com o rosto coberto de sangue cheio de fragmentos de vidros alojados em seu corpo e cortes profundos. Os olhos estavam revirados e seu corpo caiu imóvel no chão. Desesperei-me. Virei minha mãe e ela estava no mesmo estado. Agora só tinham corpos no chão. Corpos ensangüentados e sem vida... A praia e a tempestade haviam sido consumidas por uma escuridão, não havia mais nada, em lugar nenhum. Os corpos desapareceram engolidos junto. Eu estava sozinha na escuridão. O desespero cresceu e fechou minha garganta. Eu gritava inutilmente por ajuda. Meu coração estava acelerado e eu estava morrendo de medo, medo de todo aquele silêncio, da solidão, medo e desespero...

Finalmente, acordei – saltei sentada seria mais específico – continuando o último grito do meu sonho. Eu estava em choque, transpirando, meu coração acelerado, minha respiração descontrolada... Eu abracei meus joelhos e permaneci sentada por um tempo. Comecei a chorar descontroladamente – torcendo para que minha avó não ouvisse. Aos poucos controlei minha respiração "Só um sonho... É só um sonho..." repeti várias vezes mentalmente "Só um sonho... Um sonho que vai te atormentar para sempre!".
Não adiantava nada ficar parada sentindo pena de mim mesma. Dei um longo suspiro e enxuguei as lágrimas "Tente esquecer Liza, esqueça a dor!". Aos poucos, consegui controlar minha respiração e deitei de novo esperando o sono voltar, rezando para que o pesadelo não voltasse nunca mais!
Depois de um tempo, percebi que o sono não viria – era de se esperar, considerando o choque que o pesadelo me causou. Olhei para o relógio que estava ao lado da cama.
- 06h38min... Muito cedo!
Olhei para a janela, ainda estava escuro. Já que eu não conseguiria dormir era melhor levantar. . Lentamente levantei-me, espreguicei-me, e fui para o banheiro. Escovei os dentes, penteei o cabelo e desci para a cozinha. Minha avó deveria estar dormindo. Resolvi fazer o café da manhã para matar tempo, mas desanimei quando cheguei à cozinha.
Em cima da bancada, estava um pequeno conjunto de coisas para o café da manhã, pão, leite, chá, geléia, margarina, e bananas com aveia... “Tudo isso para mim?” Antes eu teria comido tudo sem pestanejar, mas devido aos acontecimentos (e a falha no meu organismo) eu não ia conseguir digerir tudo aquilo. O fato de ela não estar comigo, não ajudava. Por falar nisso... Onde ela estava? Foi quando percebi o bilhete que estava perto dos alimentos. A letra era graciosa e firme, o bilhete dizia:

Eliza, precisei resolver uns problemas, achei que você não gostaria de vir comigo, por isso não te acordei.
Saboreie seu café, pode comer o que quiser da geladeira, seu almoço está no forno de microondas.
Volto ao anoitecer, estarei em casa na hora do jantar,
Pode usar o computador da biblioteca se quiser.
Se precisar me ligue, o número está ao lado do telefone.
PS: Procure não sair de casa, não quero ter que mandar os bombeiros para te procurarem!”

Ela tinha razão! Provavelmente me perderia, mas o que eu iria fazer o dia todo? Eram apenas sete da manhã, eu tinha o dia pela frente e um tédio enorme se aproximando!
Resolvi começar do começo. Pelas opções que ela me ofereceu, primeiro o café. Bom, eu não ia nem tentar comer tudo – deixaria esse esforço para o almoço – optei pelo chá, fiz uma xícara e tomei um gole.
- Erva doce!
Bem, meu estômago aceitou o chá, então resolvi forçar um pouco e comi uma fatia de pão com geléia, mas ele (o estômago) não queria. Senti que se eu o forçasse me devolveria tudo, então era o suficiente! Peguei a xícara de chá e andei pela casa, fui do térreo ao sótão, entrei em cada cômodo – menos no quarto da minha avó.
A casa era bem espaçosa e equipada. No segundo andar havia quatro cômodos, dois de cada lado, um de frente para o outro. Um era meu quarto, o outro o da minha avó, do outro lado um era a biblioteca e o outro estava trancado.
Fui para a biblioteca. Era ampla com centenas de livros, no centro inferior tinha uma escrivaninha antiga, mas conservada, semi nova eu diria. Nela tinha um computador até moderno, uma impressora a laser e do lado da escrivaninha uma foto-copiadora. Era uma combinação de modernidade e antiguidade agradável.
Sentei na enorme poltrona e liguei o computador. 
Entrei no chat. Não havia ninguém on-line, Minimizei a tela e fui ver meus e-mails. Tinha vários dos meus amigos – mandados em segredo da minha psicóloga –, todos preocupados e cheios de saudade. Respondi um por um com uma atenção desnecessária – tudo para matar o tempo. Alegrou-me o fato de que eles se importavam comigo, mas cada e-mail me trouxe uma dor diferente, alguns saudade, outros tristeza, desanimo... "Parece que Dra. Fisher tem razão!" Manter contato com eles só me fazia sentir pior, sabendo que eu nunca mais os veria... – minha avó deixou bem claro que eu não voltaria para o Brasil – “Esse país é muito primitivo, não tem leis nem justiça, não botaremos mais os pés aqui!" Ela realmente odiava o Brasil!
O melhor seria seguir o conselho – ou melhor, a ordem – da Dra. Fisher e não manter contato com eles. Só estava me fazendo mal. Eu só poderia rever algum deles depois que fizesse 18, e até lá, eu não ia sofrer mais – já tinha muito sofrimento na minha lista,
Depois de responder os e-mails, já estava pronta para apagar minha conta definitivamente no chatquando alguém entrou, minha companheira de classe Cintia. Ia puxar conversa, mas ela o fez primeiro.
Cintia diz:
O q aconteceu c/ vc??? :-(
Liza diz:
O q vc qer dizer?? ^o) Além do óbvio? O.o
Cintia diz:
Sim, além do acidente!! Vc sumiu e ñ deu notícias :-@
Eu não tinha me dado conta de que não ficava on-line desde o acidente. Fiquei semanas em órbita! Não sabia o que responder. Nesse instante entraram mais dois, minha melhor amiga Carla e o Bruno um paquera antigo – mas nunca rolou nada. Decidi compartilhar a conversa assim só escreveria uma vez.
Carla diz:
Liza, o q ouve??
Bruno diz:
Qual é a daqela psicólogo maluca?? ¬¬
Cintia diz:
Não te deram acesso a um computador?? :-p
Liza diz:
Calma gente eu to bem!! :-) ñ deu p/ me comunicar depois do... vcs sabem!
  sinto muito ter preocupado vcs! eu to bem! s:-) 
Carla diz:
Eu sinto muito pelo q aconteceu :-(
Bruno diz:
Eu tbm! mó raiva daqela pisicólogo!!!
Liza diz:
Tudo bem gente ñ foi culpa de ningém!! E ela tinha razão Bru!! :-/
Bruno diz:
O que vc qer dizer? O.o
Carla diz:
É o q vc ta dizendo? q ñ qer ve agente? :-@
Cintia diz:
Onde vc tá??
Liza diz:
Calma gente!! 1 de cada vez! :-) eu to em Santa Rosa próxima de San Francisco! E... vcs naum deviam ta na aula ;-)?
Bruno diz:
E tamos!!
Cintia diz:
Aula de informática! s:-)
Carla diz:
E como é ai?? Igual nos filmes??
Liza diz:
Ñ dá pra saber ainda eu só vi o avião, o carro, e a casa! + eu daria tudo p ta ai c/ vcs!
Bruno diz:
Agente sabe! vc nos ama! :-p
Liza:
Bru vc é um bobão!
Bruno diz:
Vc num respondeu minha pergunta lembra?=^.^=
Carla diz:
O q vc disse sobre a psicólogo estar certa?
O que eu podia dizer? O certo seria ser grossa para que nunca mais quisessem falar comigo, mas já bastava eu sofrer, eles não tinham que passar pela mesma coisa. Meus dedos tremeram sob o teclado, só em pesar no que eu teria que escrever! Mas apenas lendo as mensagens instantâneas dos meus amigos o meu coração se enchia de dor – não tão forte quanto às lembranças do acidente me traziam, mesmo assim ruins o bastante para não conseguir suportar.
Cintia diz:
Liza? vc ta ai??
Optei pela verdade e esperava que fosse suficiente!
Liza diz:
Vcs ñ entendem! Ta muito difícil suportar a dor da perda q eu sofri, meus pais, minha casa, meu país... Vcs... É muito doloroso e fica mais difícil quando falo c/ vcs, a saudade me corróe como ácido e só alimenta uma falsa esperança! Eu ñ posso + passar por isso, ñ vou consegui agüentar! Eu sinto muito, espero q entendam, eu amo vcs, mas ñ agüento + sofrer!!
Ouve uma longa pausa depois que eu enviei a mensagem. Esperei calmamente a resposta.
Cintia diz:
É a ultima vez q nos falamos??? O.O
Liza diz:
É sim, sinto muito!!
Bruno diz:
Vamos sentir sua falta!
Liza diz:
Eu tbm!
Carla diz:
Nós te amamos Liza!
Liza diz:
Tbm amo vcs!
Lagrimas escorriam dos meus olhos. Dizer adeus era mais difícil do que eu pensava!
 Fechei a conversa e exclui minha conta permanentemente. Uma nova dor me invadia! Era pior dizer adeus e saber que poderia estar ao lado deles, mas era melhor assim... Engoli o choro e coloquei essa nova dor junto com a outra – agora elas seriam companheiras.
Desliguei o computador e sai da biblioteca. Não tinha idéia do que fazer, mas precisava me ocupar de alguma forma ou voltaria a pensar nisso e eu certamente não iria ser bom!
Meu chá já estava frio quando cheguei à cozinha. Olhei o grande relógio que estava pendurado na parede. Não passava de 08h30min "A despedida on-line durou menos do que eu pensei!" Não era o bastante, ainda tinha quase doze horas para matar.
Na esperança inútil de prolongar meu tempo, guardei os alimentos do café. Um a um fui descobrindo onde colocá-los. Levei um pequeno susto quando abri a geladeira para guardar a margarina. Estava repleta de guloseimas, porcaria, doces, tortas, bolos... Uma verdadeira festa para o paladar – e eu com passagem livre para comer tudo – a alegria de qualquer adolescente! De qualquer um, menos dessa adolescente aqui! "Droga de falta de apetite, esta me dando nos nervos!"
Fechei a geladeira, com um pouco mais de força que o necessário. A caminho da sala, parei a um lindo pote de vidro que estava sob uma mesinha, nele continha muitos bombons e trufas de vários sabores "Será que você ainda aceita chocolate?" Perguntei – mentalmente – para meu estômago. Sempre fui "chocólatra" e isso não podia mudar. Peguei quatro de uma vez só e me joguei no enorme sofá branco. Zapeei pelos canais procurando algo que eu reconhecesse enquanto devorava os bombons lentamente – de novo levou o dobro do tempo que eu levaria – mas pelo menos meu estômago não tentou devolvê-lo "Bom! Umas calorias a mais para compensar as do café!".
Não encontrei nem um programa que valesse a pena assistir. Procurei entres os filmes em DVD, mas minha avó gostava de clássicos, o mais recente deles era Titanic - que eu já vi umas doze vezes. Eu poderia colocar um assim mesmo, mas não ia me adiantar nada. Se eu não me concentrasse, minha mente ia vagar entre dores, lembranças e saudades, e isso era o que eu estava evitando. Toda essa analogia me consumiu apenas uma hora "Merda! O que eu vou fazer agora?".
Foi quando me lembrei do que minha avó disse sobre as tintas para o meu quarto estar na garagem. Não tinha nenhuma idéia para passar o tempo mesmo, por que não bisbilhotar? Cheguei à garagem e encontrei as tintas facilmente. Com a ajuda de uma chave de fenda abri a tampa, no mesmo instante me encantei com a imagem do quarto pintado.
A primeira lata era de roxo bebê – ou lilás, como acharem melhor – e a segunda era de rosa no mesmo tom de bebê. Eu não teria escolhido outras cores se pudesse "Muito obrigada vó, acertou em cheio!".
Eu estava tão ansiosa para que elas fossem usadas que pintaria eu mesmo... "Por que não?"
Realmente não sei o que me deu! Um espasmo repentino talvez. Movi-me por impulso. Não teria problemas com isso. No Brasil meu pai e eu pintamos o meu quarto. Ele ensinou-me cada passo e eu poderia fazer sozinha.
Perto das latas estava todo material necessário – pincel, rolo, forro – que havia sido comprado para os pintores. Isso me consumiria o dia inteiro "Perfeito!".
Aos poucos subi com o material, troquei de roupa e coloquei o macacão branco que estava junto. Empurrei os poucos móveis para o centro do quarto – não pegaram nenhum espaço – e os cobri com o forro. Tomei cada medida necessária para a pintura, cada detalhe – não queria dá motivos para minha avó achar que fiz besteira.
Peguei meu Ipod e selecionei as musicas no auto-falante. Auto o suficiente para ouvir do térreo e baixo o bastante para não incomodar a vizinhança – a casa mais próxima ficava a seis metros. Claro que 90% das minhas músicas eram de bandas brasileiras – NX zero, Fresno, Pitty, Vanessa Camargo, CPM 22, Charlie Brown Jr... No fundo eu queria mesmo que um vizinho passasse na frente da casa e absorvesse um pouco de musica de verdade.
“Acho que estou ficando patriota e paranóica!”
Com tudo preparado comecei! Não demorou, para que eu me empolgasse. Dancei e cantei cada música enquanto deslizava o pincel. Uma hora e meia depois o quarto estava pronto. Abri a janela para que o ar secasse a tinta mais rápido. Enrolei um pouco no térreo – assisti ao canal de esportes por que era a única coisa que não mudava (homens atrás de uma bola, sempre serão homens atrás de uma bola) – e voltei para a segunda demão, que me consumiu mais uma hora.
Já passava de meio dia quando o quarto ficou pronto – estava melhor do eu pensei que ficaria – com o acabamento todo profissional. Usei o lilás como base e a tinta rosa para fazer pinturas em estêncil de borboletas e outras desenhos tribais.
A essa altura eu estava ouvindo pela segunda vez a lista de músicas, mas eu não me importava, estava tão bom... A sensação era calorosa, não machucava como as que eu havia sentido desde o acidente. Era um espasmo de energia e empolgação. Não sei se foi o fato de me ocupar com algo útil, o de estar com a mente ocupada ou o fato de estar ouvindo as músicas do meu país, talvez a junção dos três, não importa, eles tinham me causado umas poucas horas sem dor! Era tão bom não me sentir mal, era tão bom não sentir a dor. Eu não descreveria isso como felicidade – porque não seria possível ser feliz de novo – talvez alegria, sim alegria "Quanto tempo faz que não me sentia assim? Estava com saudade"
O quarto estava pronto, tornei a abrir a janela e aumentei o volume do Ipod. O espasmo de alegria ainda não desaparecera, e torcia para que não se fosse. De repente senti uma rajada de dor. Não qualquer dor, aquela dor, a dor que me corroía desde o acidente, a dor da perda. Rapidamente o espasmo deu lugar a ela, levando consigo qualquer paz que tinha me causado. Meus olhos se encheram de lágrimas, o meu peito ardia novamente e uma voz falava na minha cabeça, era minha voz, mas não era eu – por que eu não diria algo que me ferisse – era uma voz brava, como se o acidente tivesse adquirido uma voz própria... "Como você pode estar alegre?... Seus pais estão mortos... Você está sozinha... Por que você está sorrindo? Estão todos mortos... E você deveria estar também!..."
Sentei no chão e encostei-me ao forro que estava cobrindo a cama, abracei os joelhos e escondi a cabeça. Não sei como de repente fui de um espasmo de alegria à agonizada de dor. Tudo voltava, a dor me trazia os flashes do acidente, o desespero, o medo... E agora me trazia as lembranças do sonho – eu disse que me ele me atormentaria!
"Merda! É tão errado tentar não sofrer?” A pergunta foi retórica, mas fazia sentido, será que toda vez que me sentisse alegre, algo me puxaria para o abismo em que eu vivia? Eu já estava cansada de flutuar na escuridão, sem chão, sem uma luz que me guiasse... Mas parecia que ia ser assim de agora em diante, eu era forte o suficiente para aguentar, eu aceitaria isso! Eu era forte! Não era? Deus queira que sim!
Olhei para meu relógio de pulso, ele marcava 14h32min, metade do meu dia tinha ido e isso era ótimo "Mais quatro horas e meia e minha avó estará aqui!" Isso me confortava. Com ela em casa eu me ocuparia mantendo a imagem de moça refinada – qualquer coisa para não pensar na dor.
Suspirei fundo e tomei coragem para levantar a cabeça, dei uma boa olhada nas paredes outra vez... "É lógico! Agora eu entendo... As cores, rosa e lilás as cores preferidas da mamãe! Talvez Dona Catherine não tenha tido tanto problemas para escolher as cores!". Por isso que me senti tão mal repentinamente, voltei minha atenção para as músicas... “Harg! A musica! Ed Motta!” A música que meu pai cantava! Na hora me subiu uma raiva, desliguei o som e deletei a música, ia jogá-lo longe, mas seria um desperdício se quebrasse!
Eu estava enlouquecendo. Isso era paranóia. Eram só cores, era só uma música – minha música favorita – que eu teria que baixar de novo.
Respirei fundo novamente – isso estava se tornando hábito – e me refiz. A dor não se foi, mas eu já estava me acostumando à angústia. Levantei e concentrei-me. Liguei novamente o Ipod – dessa vez no fone – e comecei a mexer nos móveis.
Não dava pra colocar no lugar – encostados na parede – então só tirei do centro e os aproximei das paredes. Guardei os materiais de pintura e deixei tudo arrumado. Quando fui fechar a janela, vi umas caixas no jardim – entregues pelo correio – umas sete caixas cheias de carimbos de viagem.
- Minhas coisas!
Que ótimo! Colocar os móveis no lugar tinha finalizado meu passatempo, agora com as minhas coisas lá em baixo eu perderia um bom tempo fuçando nelas.
Desci correndo até a porta, mas parei na maçaneta, tinha um espelho próximo e pude ver como eu estava horrível, de macacão branco, suja de tinta, com rabo de cavalo meio desmanchado. Seria prudente uma garota sair daquele jeito? Era só alguns metros até as caixas, mas alguém poderia me ver e... “Ah quem se importa?”
- Se liga garota! Ninguém se importa com você! – falei para mim mesma.
Deixei de lenga lenga e fui pegar as caixas. Aos poucos levei uma a uma para a garagem. Não olhei em volta para saber se alguém estava vendo – não me interessava –, mas tive uma forte (quase enorme) sensação de que alguém me observava.
Com as caixas na garagem pude fuçar nos meus objetos. Claro que a maioria me lembrava meus pais, já que eles me presentearam com boa parte de ursinhos, acessórios, porta-treco, porta-jóias... E tudo que me trazia a lembrança (e a saudade imensa) deles, de certo modo eu não ligava, e mesmo assim, acostumar-se não é supor.
Alguns objetos eu levei para o quarto, outros permaneceram guardados, não tinha mais nada a fazer – em relação ao quarto – então tomei um banho e coloquei roupas limpas - uma calça jeans e uma blusa. Foi aí que lembrei.
- Eu não almocei...!
Droga! Tinha esquecido, e sem a ajuda do meu relógio intestinal ficava difícil! Não perdi tempo. Corri para o microondas e esquentei meu almoço. O prato continha macarrão com almôndegas, rosbife grelhado e batatas fritas. Lentamente comi 2/3 até meu estomago reagir estranhamente.
Minha boca começou a salivar com um gosto estranho juntamente veio um impulso do estômago. Pelo sim, pelo não, corri para o banheiro. Só tive tempo para chegar ao vaso. Vomitei o que com tanto esforço tinha conseguido engolir.
Escovei os dentes e voltei pra cozinha. Não conseguia entender o que estava acontecendo comigo. Eu não conseguia comer e quando comia a força, vomitava! Apenas lembrar-se de fazer refeições não ia ser suficiente.
Joguei o que sobrou no lixo. Odeio desperdiçar comida, mas eu não tinha cabeça para pensar nisso. Se me ocupasse e não pensasse na falha de meu organismo, eu ficaria bem. Era nisso que eu queria acreditar!
O resto do tempo eu matei organizando os DVDs em ordem alfabética, os jogos por ordem de jogadores e as revistas por ordem de data "Que merda! De onde veio o perfeccionismo?" Tudo para me manter ocupada, para não pensar na dor, na solidão... Essa paranóia de contar o tempo já estava me enchendo também, logo eu atacaria meu relógio pela janela.
Quando me entreguei ao tédio, liguei novamente no canal de esportes e joguei-me no sofá.
Finalmente minha avó chegou. Era umas 18h30min – não olhei dessa vez – trazendo consigo muitas sacolas, uma delas com nosso jantar, as outras continham livros, cadernos, estojos, e muitos outros materiais de escola.
- Aqui tem tanta coisa, é tudo necessário? – perguntei quando ela me mostrou.
- É claro, você vai ver como o ensino aqui é puxado!
Ótimo era o que eu precisava!
- Não vai perguntar o que fiz o dia todo? – ela perguntou.
- Eu não queria ser inconveniente, mas estou curiosa! – menti descaradamente.
- Bom eu fui fazer sua matricula no Piner High School, comprei os materiais e encomendei seus móveis!
"Uol! Como ela é eficiente!"
- Meus móveis?
- Sim! Ou você achou que ficaria apenas com aqueles “móveisinhos”? Os pintores chegam de manhã, e os móveis de tarde. Sábado já vai estar pronto!
- Hã... Vó... Na verdade pode cancelar os pintores. Fiquei meio entediada e fiz a pintura eu mesma, e por sinal adorei as cores... – menti de novo.
- Espera! Você fez a pintura? – ela estava chocada.
- É, aprendi com meu pai, o resultado foi ótimo...
Ela não acreditou, mas por fim deu de ombros. E eu ignorei o nariz torcido dela ao ouvir sobre meu pai.
- Bom, se você gostou... Vai nos poupar tempo! Suas coisas já chegaram do correio?
- Já sim, estão na garagem!
- Espero que tenha se divertido hoje...
“Foi um dos dias mais entediantes e piores que já tive!”
- Oh, claro foi... Animador!
Sei que menti descaradamente (de novo), mas a idéia era fazê-la sentir-se melhor.
Ficamos acertando os detalhes da minha nova vida. Ficou combinado que ela me daria uma mesada de 50 dólares por semana. Tentei argumentar e dizer que queria trabalhar, mas ela descartou qualquer esperança minha "Nem pensar, já vai ser difícil para você se acostumar com o ensino, não quero que você perca o ano por não ter tempo de estudar!". Ela tinha razão, e discutir com ela não adiantaria mesmo. Simplesmente me conformei – por enquanto – para o bem da nossa convivência. Ela também me entregou um celular – nem moderno, nem ultrapassado – útil demais para mim, para que pudesse me encontrar se eu me perdesse.
Depois do meu jantar forçado – que ficou mais fácil tendo que manter a compostura diante da minha avó – dei-lhe boa noite e subi para o quarto com meus materiais, dando graças a Deus por ter conseguido segurar o jantar no estômago.
 Coloquei tudo no closet. Enrolei um tempo lendo, outro escrevendo, outro desenhado... E finalmente dormi rezando para que meu sonho não se repetisse. Claro que não adiantou, tive o mesmo sonho, com a mesma intensidade, com a mesma dor, acordei no mesmo desespero, sob as mesmas lágrimas... O mesmo terror! Mas dessa vez procurei abafar meus gritos para não acordar minha avó...

 

Todos os capítulos estão nesse link.

quarta-feira, fevereiro 05, 2014

Livro | A Última Dor - Capitulo 2




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A viagem de avião foi lenta e entediante! Dormi a maior parte do tempo. Não comi nada do que me ofereceram (mesmo que na primeira classe servissem coisas ótimas!). Minha avó também não pareceu confortável, pelo menos ela comeu, mas não me perguntou por quê não comi. Talvez morar com ela, não vá ser tão ruim como pensei. A falta de atenção por parte dela pode ser favorável nesse lance de ser invisível.
Saímos do aeroporto e seguimos em um táxi. Sentei-me no banco de trás com minha avó. Foi uma sensação estranha! Meu estômago embrulhou, e me deu um frio na barriga seguido de um aperto no coração, minha cabeça rodou, ficou ligeiramente mais leve e veio na minha mente flashes de todo o acidente. Nada que eu já não tivesse visto. Isso me incomodou. Comecei a escrever em um caderno para ver se ajudava, mas as lembranças não revelaram nada, só a mesma sequência: O carro, a luz, o olhar... O aperto, a dor e a escuridão. Será que eu sentiria isso toda a vez que entrasse em um carro? Ou seria questão de costume? Acho que não, já que andei de taxi em Copacabana e não me senti tão mal.
Perdida em devaneios (e conversas internas comigo mesmo), a viagem de carro foi menos desconfortável. Pela janela percebi que o tempo estava agradável. Era fim de tarde, o sol estava se pondo e a temperatura estava agradável. Um fim de tarde quente e um começo de noite fria. Por enquanto seria outra coisa para me acostumar, o clima! Que saudade do Brasil!. Deixei boa parte das roupas para o calor e trouxe comigo as roupas mais quentes. Minha avó disse que eu teria que ir as compras – isso ia ser bom – montar um guarda-roupa novo, próprio para o novo país! Guarda-roupa novo eu posso aguentar fácil (mesmo as lembranças do acidente não me deixando pensar em outra coisa). Mas não vou mais falar português, não vou mais usar os mesmos tipos de roupas. O que mais? Com certeza ainda vou adicionar muito a esta lista.
O carro parou em frente a uma casa que no Brasil seria considerada como uma pequena mansão. Não sei o que ela é considerada aqui e sinceramente, não estava a fim de descobrir.
- Chegamos! – disse-me ela.
Eu não a ouvi muito nesses dias em que estivemos juntas, nossas conversas não passavam de "Está pronta...?" "Podemos ir...?" “Cadê você?” por parte dela e "Sim senhora!" "Estou sim!" da minha. Sem contar às vezes em que ela reclamava do Brasil: "Não sei como conseguem viver nesse país, tão quente, tão atrasado...". Ela não se conformava que 100% do país não falasse inglês, o que a deixou desorientada. Que culpa os brasileiros têm de ela não falar português?
Não tentei defender o país – por mais que eu quisesse, e teria muitos argumentos a meu favor – não seria o modo certo de começar nossa relação. De uma hora para outra essa completa estranha se tornou a minha única família.
Acho que não descrevi minha avó, não é?! Bom... Ela é uma coroa até simpática. Desde a morte do meu avô, – de acordo com minha mãe – passou a viver a vida de uma forma mais reservada. Seu cabelo é preto, grosso, bate no ombro, liso com as pontas para dentro – pelo menos foi esse o penteado que ela usou desde o primeiro dia que a vi. Corpo pequeno e formas medias e proporcionais. Tem olhos azuis escuros como os meus e parece ter muita classe ou o nariz bem empinado.
Fisicamente até que somos parecidas. Tenho o mesmo cabelo preto, porém o meu é mais fino com cachos abertos ondulados que vão das costas as pontas – herdei-os do meu pai. Tenho os mesmos olhos e a mesma pele branca herdada da minha mãe, ou no caso da minha avó. Nesse momento minha pele está ligeiramente bronzeada, resultado de morar a beira mar (vamos ver até quando vai durar).
Descemos do carro e aos poucos levamos minhas coisas para dentro – metade chegaria dia seguinte por correio.
Por fora a casa era branca com muitas (quatro) janelas de vidro, o jardim era verdinho com algumas flores silvestres plantadas em formas retangulares e com muitas luzes semelhantes à pisca-pisca espalhadas por todo ele. Não havia portão. Apenas um caminho de concreto entre a grama e ao lado para a garagem, e um retângulo de metal pendurado numa vareta – caixa de correio. 
Por dentro era amplo e aconchegante. Na sala havia uma lareira em mármore. As paredes eram brancas, com lindos quadros pendurados, a maioria releituras de Monet – minha mãe procurou me instruir de muitas maneiras, por isso os identifiquei. Havia um sofá grande branco com almofadas vermelhas e um tapete felpudo para combinar com a decoração. Dava para ver a cozinha de relance, aparentemente bem equipada, toda em inox – não é um lugar que eu pretendia ficar para descrever melhor. A escada era cumprida, com degraus brancos e um corrimão marrom – combinando com as portas duplas de entrada. Havia aqueles tapetes de escada, que só pegam o centro dos degraus na cor vermelha – combinando com as almofadas.
Aparentemente Dona Catherine tinha bom gosto e muita classe.
Percebendo minha expressão e meus devaneios sobre sua casa ela perguntou.
- Gostou?
Parece que com ela não haveria diálogos muito cumpridos no máximo algumas palavras.
- Sim, é agradável! – achei melhor não usar de gírias na frente dela, caso contrário eu diria "Maneiro!"
Meu comentário a agradou. Foi bom tela deixado contente. Mesmo que tenha sido por um motivo banal.
Vendo que eu não falaria mais nada, ela começou a fazer o papel de anfitriã.
- Bom aqui é a sala, por ali é a cozinha – ela foi apontando – e a lavanderia. Alguns dias por semana a faxineira vem para fazer a limpeza. Deixe as roupas sujas em frente ao quarto, que elas serão lavadas e passadas.
- Sim senhora! – como eu disse não me preocuparia com nada.
- Os quartos são limpos uma vez por semana, então não deixe objetos pessoais jogados para que não se percam...
- Na verdade... – eu a interrompi – Não me importo de limpá-lo eu mesma!
Era o melhor para mim. Não queria uma estranha mexendo nas minhas coisas. Além disso, fazia isso no Brasil e não me importava. Isso me manteria ocupada e faria lembrar-me da minha antiga vida.
Dona Catherine encarou-me como se eu estivesse enlouquecido. Vendo que não era loucura, respondeu:
- Como quiser! – ela pareceu um pouco confusa, mas deu de ombros e continuou – o café da manhã é servido às 7, o jantar as 19, o seu quarto é por aqui...
Ela começou a andar e eu a segui. Confesso que não estava muito ansiosa para conhecê-lo (outro item para minha lista). Por mais que eu tivesse trazido metade do meu antigo quarto comigo (objetos decorativos, frufrus e bugigangas que adoro) não era a mesma coisa. Não era o meu quarto. Não era minha casa. Não era minha vida! Pelo menos, não ainda.
O quarto que ela me indicou ficava no fim do corredor. Não era gigantesco, nem minúsculo – era maior que o meu antigo. As paredes eram brancas, com uma enorme janela de vidro afundada em paredes grossas com a parte de baixo acolchoado para se sentar. Um carpete bege clarinho cobria o chão, com duas portas que davam acesso a outros lugares. Só havia uma cama de solteiro com uma colcha branca. Uma escrivaninha com um abajur e uma poltrona estofada na cor bege mais escuro. Para mim, pareceu um quarto de hóspedes.
- Eu não tive tempo de prepará-lo – disse-me – tudo aconteceu muito rápido... Suas aulas só começam na segunda – era quarta-feira primeiro dia do mês– então você pode mudar o que quiser. Contratei uns pintores, eles virão na sexta. As tintas estão na garagem tomara que goste das cores, se não podemos mudar...
- Não, se a senhora as escolheu, então provavelmente vão me agradar!
  Ela deu um meio sorriso. Senti-me culpada. Ela me queria bem! Queria que eu me sentisse em casa, queria minha companhia, e eu pensando mal, pelo amor, ela era minha avó! Óbvio que me queria bem! Não é?!
- Vou deixar você à vontade.  Vou lhe preparar um lanche, como você não comeu no avião deve estar faminta – então ela notou! – suba só com o essencial, o resto você pode trazer para cá quando terminar de arrumar o quarto!
- Tudo bem!
 Ela saiu do quarto.


Minha avó desceu para o térreo me deixando sozinha no meu novo quarto. Peguei a bolsa que eu tinha subido comigo e tirei meu nécessaire de banheiro com escova, pasta, xampu, sabonete e etc. Segui até o banheiro – que deduzi ser na outra porta. Era agradável! Todo em azulejo branco, com rosas em azul bebê pintadas alternando. Era amplo para quarto de hóspede. Tinha uma banheira e um espelho que ia do teto ao chão. Pequenas luzes no mesmo tom de azul espalhados pelo banheiro todo. Ao lado da banheira tinha pequenas prateleiras com velas coloridas e vidrinhos perfumados – sais de banho. Como eu disse bem agradável!
Depois de admirar meu banheiro – no Brasil o meu não era tão estiloso – deixei a nécessaire sobre a pia e coloquei cada coisa em seu lugar. Depois de esvaziá-la, voltei ao quarto e segui para meu novo companheiro, o closet.
Não era grande coisa, um cômodo de 2x2m. De um lado tinha lugar para pendurar cabides e dezenas deles vazios, do outro, prateleiras para colocar sapatos. Tinha uma pequena luz de teto. Guardei as duas mudas de roupa que eu tinha subido – não me dei o trabalho de pendurá-las, coloquei nas prateleiras mesmo – e fui para o banheiro.
Eu não percebi até aquele momento o quanto eu deveria estar cansada, levando em conta a exaustiva viagem, a má alimentação e o estresse emocional. Mas por mais que eu soubesse disso, meu corpo não dava grandes sinais de cansaço, assim como não dava sinal de fome... Que ótimo! Outro problema para pensar depois: “Meu corpo está dando chiliques por mim!”
Essa certamente seria uma preocupação para depois, com certeza iria passar em alguns dias, era só o estresse da mudança de vida.
Despi-me lentamente, sem pressa – esses dias já tinham sido apressados o suficiente. Coloquei as roupas no cesto e encarei o espelho gigante. Meu corpo não tinha mudado com toda essa tragédia. Nenhuma cicatriz ou marca – tinham ficados uns hematomas, mas já estavam sumindo. Estava tudo no lugar, e esse era o problema! Se eu continuasse com a falta de apetite, provavelmente ia virar anoréxica – a diferença era que, eu não queria emagrecer.
Como isso ia me incomodar! Sempre adorei meu corpo, não tenho nenhuma gordura fora do lugar – devido à vida cheia de esportes que eu levava no Brasil – minha cintura é fina, tenho as "curvas brasileiras". Perder, nem que fosse uma das medidas, não iria me agradar! Por isso, se meu corpo não ia me lembrar de fazer refeições, eu o faria por ele! Era só não se esquecer de comer, fácil! Esse problema não era assim tão complicado – mas se persistisse eu procuraria um médico.
Desliguei-me um pouco da minha aparência e fixei meu olhar nos meus olhos. Havia algo errado. Algo em mim estava muito diferente. Meus olhos não estavam expressivos e brilhantes como sempre foram... Não, eu definitivamente não era a mesma Liza de antes, eu estava mudada, mas não para bem, eu estava com meu coração atolado em dor, e isso se refletia claramente. Eu me conhecia bem o bastante para saber que eu, não era mais eu mesma e não fazia ideia de como trazer a velha Liza de volta.
Depois da minha análise em frente ao espelho. Fui para o chuveiro. A água estava perfeita, a temperatura relaxou meus músculos eu comecei a sentir um pouco do cansaço – 1/3 do que eu devia estar sentindo.
 Tomei um banho rápido e lavei o cabelo. Desliguei o chuveiro e me sequei, quando eu quisesse demorar, usaria a banheira, afinal era para isso que ela estava ali!
Vesti minha calça xadrez duas vezes maiores que eu – própria para dormir – e minha regata preta (vai saber em que mala estava meu pijama!). Penteei o cabelo e fui para o quarto
Não tinha televisão, então fui atrás dos meus livros – sorte que coloquei alguns na bolsa – todos de autores brasileiros.  Isso me manteria ligada a minha cultura, ou talvez só dificultasse a minha habitação. Não importa! Peguei um de Pedro Bandeira e comecei a folhear para passar a parte que eu já tinha lido, foi quando minha avó bateu na porta – mesmo estando aberta, – trazendo uma bandeja. Fechei o livro e o coloquei embaixo do travesseiro e dei sinal para que entrasse.
- Fiz um sanduíche para você – ela começou – espero que goste de peito de frango!
- Frango... É bom, obrigada!
Esperei que a fome viesse, mas não veio. Que droga! Teria que comer sem fome, e isso não é muito agradável.
Minha avó colocou a bandeja na ponta da cama e começou a se retirar. Eu esperava – torcia na verdade – que ela ficasse para ver se eu comeria, ou se iria gostar, isso me daria um incentivo para engolir. Mas ela estava me dando espaço, talvez para que não me sentisse pressionada, talvez para fazer outra coisa que ela tinha planejado, ou porque ela não gostava de ficar muito tempo na minha presença. Não me importava qual delas era! Tinha algo que eu precisava dizer!
- Hamm...?
Ela virou para me olhar.
- Sim?
Era a primeira vez que me dirigia diretamente a ela.
- Não sei exatamente como te chamar...
Ela pareceu pensar por um minuto.
- Bom, sou sua avó não sou? O que os vizinhos dirão se você me chamar pelo nome como você fazia no Brasil?
- Não foi isso que eu...
- Tudo bem, eu entendo. Chame-me de vó Ok?
- Certo!
Ela virou-se, mas eu intervir
- Hamm, vó?
- Diga...!
Eu tinha várias perguntas para ela, mas pelo sim e pelo não fui ao ponto principal.
- Só... Obrigada... Por tudo!
Pelo seu rosto passou muitas expressões. A que permaneceu foi a de afeto. Particularmente eu nunca fui boa em ler expressões, mas depois do acidente fiquei muito boa nisso. Acho que aguçou meus sentidos ou minha sensibilidade, não importa! (tenho dito muito “Não importa!). Ler expressões era muito útil com a minha avó, considerando que ela não falava muito. Seus olhos ternos se encontraram com os meus pela primeira vez desde que a encontrei.
- Não há de que Eliza é o meu dever de avó! Não precisa descer a bandeja amanhã a empregada recolhe! Tenha uma boa noite!
Acenei com a cabeça e dei um sorriso. Ela acenou com a cabeça e saiu
Se eu estava confusa daquele jeito, ela também devia estar afinal à vida dela mudou da mesma forma que a minha. Mais um motivo para manter as aparências – de ser a forte, a equilibrada e a sofisticada – tudo que deixasse a vida dela mais fácil, e a minha mais difícil!
Também fiquei um tanto... Invocada com o fato de ela ter me chamado de "Eliza". Quando me chamam formalmente, usam “Elizabeth”, os amigos muito íntimos usam “Liza”. É a primeira vez que me chamam de “Eliza”! Então ela não queria ser nem formal, nem íntima, ficando entre os dois – ela fez isso sem saber que estava fazendo. Não a culpo, eu mesma me sinto estranha por chamá-la de "vó" e não ia ser bom chamá-la de Dona Catherine – que é como eu queria – como se ela fosse uma completa estranha. Só que ao contrário dela eu não tinha uma alternância, que chatice!
Parei de me preocupar com essa bobagem e comecei a... Degustar meu sanduíche – se é que se pode dizer isso. Prometi a mim mesma que comeria tudo que ela tivesse trazido o que quer que fosse. Por sorte era o sanduíche, suco de laranja e um pedaço de melão.
Aos poucos fui forçando e engolindo, o suco ajudou bastante. Levei o dobro do tempo que eu levaria, mas eu consegui, comi 2/3 de tudo. Teria comido mais, mas senti meu estômago estranho e achei melhor não forçar.
Juntei a bandeja e levei para a cozinha. Eu poderia deixar no quarto como ela disse, mas eu estava entediada. Coloquei a bandeja em cima do balcão de mármore preto e lavei o prato e o copo – mesmo tendo notado a enorme lava-louça. Enrolei o máximo que pude e então, subi para o quarto.
Queria protelar a hora de dormir, então, resolvi dar boa noite para minha avó. Andei em direção ao seu quarto – que ficava uma porta antes do meu. Antes que eu batesse e pedisse passagem, fui paralisada por um choro, o choro dela, da minha avó! A porta estava entre aberta. Espiei pela brecha, ela estava sentada numa poltrona de costas para a porta, ao seu lado havia um porta-retratos com a foto da minha mãe. Agora deu pra entender o motivo de choro, ela estava sofrendo como eu, e tentava ser forte para mim, como eu tentava para ela e só se permitia chorar as escuras. Era difícil vê-la sofrendo assim, afinal de contas, ela era minha avó e eu teria que aprender a amá-la.
Eu não precisava de mais sofrimentos agora. Já doía bastante o fato de nunca mais poder ver meus pais, não precisava ficar ali ouvindo seu momento de fraqueza.
Voltei de fininho para meu quarto e me joguei na cama. Não tinha mais nada para fazer a não ser dormir – depois do que ouvi não conseguiria me concentrar em um livro.
Desde o acidente eu tinha dormido a base de analgésicos para a dor. Eles me entorpeciam e eu dormia rapidamente sem sonhos, simplesmente apagava até de manhã. Hoje seria a primeira noite sem eles e sinceramente, não estava ansiosa para saber qual seria meu sonho – com certeza desagradável.
Uma hora teria que dormir! E essa hora tinha chegado!
Apaguei a luz e fechei os olhos. E sem pensar em algo, apenas sentindo a dor no meu peito, cai em um choro baixo que aos poucos tentava lavar minha alma dessa escuridão que agora me consumia.
Sem me dar conta, fui caindo no sono, não procurei pensar em nada – só ia facilitar os pesadelos – mas aparentemente... Não adiantou muito.