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segunda-feira, março 17, 2014
domingo, março 02, 2014
Livro | A Última Dor - Capitulo 3
Todos os capítulos estão nesse link.
Meu
sonho foi estranho... Começou tão agradável...! Estávamos em uma praia de
Copacabana, meus pais e eu. Todos felizes e sorrindo. Meu pai estava cantando a
“minha música”, no meu coração você sempre vai estar de Ed Motta – desde
pequena ele a cantava para mim na hora de dormir. O dia estava lindo e
ensolarado, todos estavam alegres e de repente uma tempestade se aproximou
bruscamente da praia. Minha família estava alguns passos na minha frente. Corri
até eles, mas eu nunca chegava. Eu gritava, gritava, mas eles não ouviam. Corri
mais, o mais rápido que pude. Eu estava com medo. A tempestade estava feroz. As
árvores na encosta da praia foram arrancadas. O mar estava violento... Finalmente
eu os alcancei. Coloquei a mão no ombro do meu pai e o virei, mas já não era o
meu pai de antes. Agora ele estava com o rosto coberto de sangue cheio de
fragmentos de vidros alojados em seu corpo e cortes profundos. Os olhos estavam
revirados e seu corpo caiu imóvel no chão. Desesperei-me. Virei minha mãe e ela
estava no mesmo estado. Agora só tinham corpos no chão. Corpos ensangüentados e
sem vida... A praia e a tempestade haviam sido consumidas por uma escuridão,
não havia mais nada, em lugar nenhum. Os corpos desapareceram engolidos junto. Eu
estava sozinha na escuridão. O desespero cresceu e fechou minha garganta. Eu
gritava inutilmente por ajuda. Meu coração estava acelerado e eu estava
morrendo de medo, medo de todo aquele silêncio, da solidão, medo e desespero...
Finalmente,
acordei – saltei sentada seria mais específico – continuando o último grito do
meu sonho. Eu estava em choque, transpirando, meu coração acelerado, minha
respiração descontrolada... Eu abracei meus joelhos e permaneci sentada por um
tempo. Comecei a chorar descontroladamente – torcendo para que minha avó não
ouvisse. Aos poucos controlei minha respiração "Só um sonho... É só um
sonho..." repeti várias vezes mentalmente "Só um sonho... Um sonho
que vai te atormentar para sempre!".
Não
adiantava nada ficar parada sentindo pena de mim mesma. Dei um longo suspiro e enxuguei
as lágrimas "Tente esquecer Liza, esqueça a dor!". Aos poucos,
consegui controlar minha respiração e deitei de novo esperando o sono voltar, rezando
para que o pesadelo não voltasse nunca mais!
Depois
de um tempo, percebi que o sono não viria – era de se esperar, considerando o
choque que o pesadelo me causou. Olhei para o relógio que estava ao lado da
cama.
- 06h38min...
Muito cedo!
Olhei
para a janela, ainda estava escuro. Já que eu não conseguiria dormir era melhor
levantar. . Lentamente levantei-me, espreguicei-me, e fui para o
banheiro. Escovei os dentes, penteei o cabelo e desci para a cozinha. Minha avó
deveria estar dormindo. Resolvi fazer o café da manhã para matar tempo, mas desanimei
quando cheguei à cozinha.
Em cima
da bancada, estava um pequeno conjunto de coisas para o café da manhã, pão,
leite, chá, geléia, margarina, e bananas com aveia... “Tudo isso para mim?” Antes
eu teria comido tudo sem pestanejar, mas devido aos acontecimentos (e a falha
no meu organismo) eu não ia conseguir digerir tudo aquilo. O fato de ela não
estar comigo, não ajudava. Por falar nisso... Onde ela estava? Foi quando
percebi o bilhete que estava perto dos alimentos. A letra era graciosa e firme,
o bilhete dizia:
“Eliza, precisei resolver uns problemas,
achei que você não gostaria de vir comigo, por isso não te acordei.
Saboreie seu café, pode comer o que quiser da
geladeira, seu almoço está no forno de microondas.
Volto ao anoitecer, estarei em casa na hora do jantar,
Pode usar o computador da biblioteca se quiser.
Se precisar me ligue, o número está ao lado do
telefone.
PS: Procure não sair de casa, não quero ter que mandar
os bombeiros para te procurarem!”
Ela
tinha razão! Provavelmente me perderia, mas o que eu iria fazer o dia todo? Eram
apenas sete da manhã, eu tinha o dia pela frente e um tédio enorme se
aproximando!
Resolvi
começar do começo. Pelas opções que ela me ofereceu, primeiro o café. Bom, eu
não ia nem tentar comer tudo – deixaria esse esforço para o almoço – optei pelo
chá, fiz uma xícara e tomei um gole.
- Erva
doce!
Bem,
meu estômago aceitou o chá, então resolvi forçar um pouco e comi uma fatia de
pão com geléia, mas ele (o estômago) não queria. Senti que se eu o forçasse me
devolveria tudo, então era o suficiente! Peguei a xícara de chá e andei pela
casa, fui do térreo ao sótão, entrei em cada cômodo – menos no quarto da minha
avó.
A casa
era bem espaçosa e equipada. No segundo andar havia quatro cômodos, dois de
cada lado, um de frente para o outro. Um era meu quarto, o outro o da minha
avó, do outro lado um era a biblioteca e o outro estava trancado.
Fui
para a biblioteca. Era ampla com centenas de livros, no
centro inferior tinha uma escrivaninha antiga, mas conservada, semi nova eu
diria. Nela tinha um computador até moderno, uma impressora a laser e do lado
da escrivaninha uma foto-copiadora. Era uma combinação de modernidade e
antiguidade agradável.
Sentei
na enorme poltrona e liguei o computador.
Entrei
no chat. Não havia ninguém on-line, Minimizei a tela e fui ver meus e-mails. Tinha vários dos meus
amigos – mandados em segredo da minha psicóloga –, todos preocupados e cheios
de saudade. Respondi um por um com uma atenção desnecessária – tudo para matar
o tempo. Alegrou-me o fato de que eles se importavam comigo, mas cada e-mail me
trouxe uma dor diferente, alguns saudade, outros tristeza, desanimo... "Parece
que Dra. Fisher tem razão!" Manter contato com eles só me fazia sentir
pior, sabendo que eu nunca mais os veria... – minha avó deixou bem claro que eu
não voltaria para o Brasil – “Esse país é muito primitivo, não tem leis nem
justiça, não botaremos mais os pés aqui!" Ela realmente odiava o Brasil!
O melhor
seria seguir o conselho – ou melhor, a ordem – da Dra. Fisher e não manter
contato com eles. Só estava me fazendo mal. Eu só poderia rever algum deles
depois que fizesse 18, e até lá, eu não ia sofrer mais – já tinha muito
sofrimento na minha lista,
Depois
de responder os e-mails, já estava pronta para apagar minha conta definitivamente no chatquando
alguém entrou, minha companheira de classe Cintia. Ia puxar conversa, mas ela o
fez primeiro.
Cintia
diz:
O q
aconteceu c/ vc??? :-(
Liza diz:
O q vc qer dizer?? ^o) Além do óbvio? O.o
Cintia diz:
Sim, além do acidente!! Vc sumiu e ñ deu notícias :-@
Eu não tinha me dado conta de que não ficava on-line desde o acidente.
Fiquei semanas em órbita! Não sabia o que responder. Nesse instante entraram
mais dois, minha melhor amiga Carla e o Bruno um paquera antigo – mas nunca
rolou nada. Decidi compartilhar a conversa assim só escreveria uma vez.
Carla diz:
Liza, o q ouve??
Bruno diz:
Qual é a daqela psicólogo
maluca?? ¬¬’
Cintia diz:
Não te deram acesso a um computador?? :-p
Liza diz:
Calma gente eu to bem!! :-) ñ deu p/ me comunicar depois do... vcs
sabem!
sinto muito ter preocupado vcs! eu to bem!
s:-)
Carla
diz:
Eu sinto muito pelo q aconteceu :-(
Bruno
diz:
Eu tbm! mó raiva daqela pisicólogo!!!
Liza
diz:
Tudo
bem gente ñ foi culpa de ningém!! E ela tinha razão Bru!! :-/
Bruno
diz:
O que vc qer dizer? O.o
Carla
diz:
É o q vc ta dizendo? q ñ qer ve agente? :-@
Cintia
diz:
Onde
vc tá??
Liza
diz:
Calma
gente!! 1 de cada vez! :-) eu to em Santa Rosa próxima de San Francisco! E...
vcs naum deviam ta na aula ;-)?
Bruno
diz:
E tamos!!
Cintia
diz:
Aula
de informática! s:-)
Carla
diz:
E como é ai?? Igual nos filmes??
Liza
diz:
Ñ
dá pra saber ainda eu só vi o avião, o carro, e a casa! + eu daria tudo p ta ai
c/ vcs!
Bruno
diz:
Agente sabe! vc nos ama! :-p
Liza:
Bru
vc é um bobão!
Bruno
diz:
Vc num respondeu minha pergunta lembra?=^.^=
Carla
diz:
O q vc disse sobre a psicólogo estar certa?
O que
eu podia dizer? O certo seria ser grossa para que nunca mais quisessem falar
comigo, mas já bastava eu sofrer, eles não tinham que passar pela mesma coisa. Meus
dedos tremeram sob o teclado, só em pesar no que eu teria que escrever! Mas
apenas lendo as mensagens instantâneas dos meus amigos o meu coração se enchia
de dor – não tão forte quanto às lembranças do acidente me traziam, mesmo assim
ruins o bastante para não conseguir suportar.
Cintia
diz:
Liza?
vc ta ai??
Optei
pela verdade e esperava que fosse suficiente!
Liza
diz:
Vcs
ñ entendem! Ta muito difícil suportar a dor da perda q eu sofri, meus pais,
minha casa, meu país... Vcs... É muito doloroso e fica mais difícil quando falo
c/ vcs, a saudade me corróe como ácido e só alimenta uma falsa esperança! Eu ñ
posso + passar por isso, ñ vou consegui agüentar! Eu sinto muito, espero q
entendam, eu amo vcs, mas ñ agüento + sofrer!!
Ouve
uma longa pausa depois que eu enviei a mensagem. Esperei calmamente a resposta.
Cintia
diz:
É a
ultima vez q nos falamos??? O.O
Liza
diz:
É
sim, sinto muito!!
Bruno
diz:
Vamos sentir sua falta!
Liza
diz:
Eu
tbm!
Carla
diz:
Nós te amamos Liza!
Liza
diz:
Tbm
amo vcs!
Lagrimas
escorriam dos meus olhos. Dizer adeus era mais difícil do que eu pensava!
Fechei a conversa e exclui minha conta permanentemente. Uma nova dor me invadia! Era pior dizer adeus e saber que
poderia estar ao lado deles, mas era melhor assim... Engoli o choro e coloquei
essa nova dor junto com a outra – agora elas seriam companheiras.
Desliguei
o computador e sai da biblioteca. Não tinha idéia do que fazer, mas precisava
me ocupar de alguma forma ou voltaria a pensar nisso e eu certamente não iria ser
bom!
Meu chá
já estava frio quando cheguei à cozinha. Olhei o grande relógio que estava
pendurado na parede. Não passava de 08h30min "A despedida on-line durou
menos do que eu pensei!" Não era o bastante, ainda tinha quase doze horas
para matar.
Na esperança
inútil de prolongar meu tempo, guardei os alimentos do café. Um a um fui
descobrindo onde colocá-los. Levei um pequeno susto quando abri a
geladeira para guardar a margarina. Estava repleta de guloseimas, porcaria,
doces, tortas, bolos... Uma verdadeira festa para o paladar – e eu com passagem
livre para comer tudo – a alegria de qualquer adolescente! De qualquer um,
menos dessa adolescente aqui! "Droga de falta de apetite, esta me dando
nos nervos!"
Fechei
a geladeira, com um pouco mais de força que o necessário. A caminho da sala,
parei a um lindo pote de vidro que estava sob uma mesinha, nele continha muitos
bombons e trufas de vários sabores "Será que você ainda aceita
chocolate?" Perguntei – mentalmente – para meu estômago. Sempre fui "chocólatra"
e isso não podia mudar. Peguei quatro de uma vez só e me joguei no enorme sofá
branco. Zapeei pelos canais procurando algo que eu reconhecesse enquanto
devorava os bombons lentamente – de novo levou o dobro do tempo que eu levaria
– mas pelo menos meu estômago não tentou devolvê-lo "Bom! Umas calorias a
mais para compensar as do café!".
Não
encontrei nem um programa que valesse a pena assistir. Procurei entres os
filmes em DVD, mas minha avó gostava de clássicos, o mais recente deles era
Titanic - que eu já vi umas doze vezes. Eu poderia colocar um assim mesmo, mas
não ia me adiantar nada. Se eu não me concentrasse, minha mente ia vagar entre
dores, lembranças e saudades, e isso era o que eu estava evitando. Toda essa
analogia me consumiu apenas uma hora "Merda! O que eu vou fazer
agora?".
Foi
quando me lembrei do que minha avó disse sobre as tintas para o meu quarto
estar na garagem. Não tinha nenhuma idéia para passar o tempo mesmo, por que
não bisbilhotar? Cheguei à garagem e encontrei as tintas facilmente. Com a ajuda de uma chave de fenda abri a tampa,
no mesmo instante me encantei com a imagem do quarto pintado.
A
primeira lata era de roxo bebê – ou lilás, como acharem melhor – e a segunda
era de rosa no mesmo tom de bebê. Eu não teria escolhido outras cores se pudesse
"Muito obrigada vó, acertou em cheio!".
Eu
estava tão ansiosa para que elas fossem usadas que pintaria eu mesmo... "Por
que não?"
Realmente
não sei o que me deu! Um espasmo repentino talvez. Movi-me por impulso. Não
teria problemas com isso. No Brasil meu pai e eu pintamos o meu quarto. Ele
ensinou-me cada passo e eu poderia fazer sozinha.
Perto
das latas estava todo material necessário – pincel, rolo, forro – que havia
sido comprado para os pintores.
Isso me consumiria o dia inteiro "Perfeito!".
Aos
poucos subi com o material, troquei de roupa e coloquei o macacão branco que
estava junto. Empurrei os poucos móveis para o centro do quarto – não pegaram
nenhum espaço – e os cobri com o forro. Tomei cada medida necessária para a
pintura, cada detalhe – não queria dá motivos para minha avó achar que fiz
besteira.
Peguei
meu Ipod e selecionei as musicas no auto-falante. Auto o suficiente para ouvir
do térreo e baixo o bastante para não incomodar a vizinhança – a casa mais próxima
ficava a seis metros. Claro que 90% das minhas músicas eram de bandas
brasileiras – NX zero, Fresno, Pitty, Vanessa Camargo, CPM 22, Charlie Brown
Jr... No fundo eu queria mesmo que um vizinho passasse na frente da casa e
absorvesse um pouco de musica de verdade.
“Acho
que estou ficando patriota e paranóica!”
Com tudo
preparado comecei! Não demorou, para que eu me empolgasse. Dancei e cantei cada
música enquanto deslizava o pincel. Uma hora e meia depois o quarto estava
pronto. Abri a janela para que o ar secasse a tinta mais rápido. Enrolei um pouco
no térreo – assisti ao canal de esportes por que era a única coisa que não
mudava (homens atrás de uma bola, sempre serão homens atrás de uma bola) – e
voltei para a segunda demão, que me consumiu mais uma hora.
Já passava
de meio dia quando o quarto ficou pronto – estava melhor do eu pensei que
ficaria – com o acabamento todo profissional. Usei o lilás como base e a tinta
rosa para fazer pinturas em estêncil de borboletas e outras desenhos tribais.
A essa
altura eu estava ouvindo pela segunda vez a lista de músicas, mas eu não me
importava, estava tão bom... A sensação era calorosa, não machucava como as que
eu havia sentido desde o acidente. Era um espasmo de energia e empolgação. Não
sei se foi o fato de me ocupar com algo útil, o de estar com a mente ocupada ou
o fato de estar ouvindo as músicas do meu país, talvez a junção dos três, não
importa, eles tinham me causado umas poucas horas sem dor! Era tão bom não me
sentir mal, era tão bom não sentir a dor. Eu não descreveria isso como
felicidade – porque não seria possível ser feliz de novo – talvez alegria, sim
alegria "Quanto tempo faz que não me sentia assim? Estava com saudade"
O
quarto estava pronto, tornei a abrir a janela e aumentei o volume do Ipod. O
espasmo de alegria ainda não desaparecera, e torcia para que não se fosse. De
repente senti uma rajada de dor. Não qualquer dor, aquela dor, a dor que
me corroía desde o acidente, a dor da perda. Rapidamente o espasmo deu lugar a
ela, levando consigo qualquer paz que tinha me causado. Meus olhos se encheram
de lágrimas, o meu peito ardia novamente e uma voz falava na minha cabeça, era
minha voz, mas não era eu – por que eu não diria algo que me ferisse –
era uma voz brava, como se o acidente tivesse adquirido uma voz própria... "Como você pode estar alegre?... Seus
pais estão mortos... Você está sozinha... Por que você está sorrindo? Estão
todos mortos... E você deveria estar também!..."
Sentei
no chão e encostei-me ao forro que estava cobrindo a cama, abracei os joelhos e
escondi a cabeça. Não sei como de repente fui de um espasmo de alegria à
agonizada de dor. Tudo voltava, a dor me trazia os flashes do acidente, o
desespero, o medo... E agora me trazia as lembranças do sonho – eu disse que me
ele me atormentaria!
"Merda!
É tão errado tentar não sofrer?” A pergunta foi retórica, mas fazia sentido,
será que toda vez que me sentisse alegre, algo me puxaria para o abismo
em que eu vivia? Eu já estava cansada de flutuar na escuridão, sem chão, sem
uma luz que me guiasse... Mas parecia que ia ser assim de agora em diante, eu
era forte o suficiente para aguentar, eu aceitaria isso! Eu era forte! Não era?
Deus queira que sim!
Olhei
para meu relógio de pulso, ele marcava 14h32min, metade do meu dia tinha ido e
isso era ótimo "Mais quatro horas e meia e minha avó estará aqui!" Isso
me confortava. Com ela em casa eu me ocuparia mantendo a imagem de moça
refinada – qualquer coisa para não pensar na dor.
Suspirei
fundo e tomei coragem para levantar a cabeça, dei uma boa olhada nas paredes
outra vez... "É lógico! Agora eu
entendo... As cores, rosa e lilás as cores preferidas da mamãe! Talvez Dona Catherine
não tenha tido tanto problemas para escolher as cores!". Por isso que
me senti tão mal repentinamente, voltei minha atenção para as músicas... “Harg! A musica! Ed Motta!” A música que
meu pai cantava! Na hora me subiu uma raiva, desliguei o som e deletei a
música, ia jogá-lo longe, mas seria um desperdício se quebrasse!
Eu estava
enlouquecendo. Isso era paranóia. Eram só cores, era só uma música – minha
música favorita – que eu teria que baixar de novo.
Respirei
fundo novamente – isso estava se tornando hábito – e me refiz. A dor não se
foi, mas eu já estava me acostumando à angústia. Levantei e concentrei-me. Liguei
novamente o Ipod – dessa vez no fone – e comecei a mexer nos móveis.
Não
dava pra colocar no lugar – encostados na parede – então só tirei do centro e
os aproximei das paredes. Guardei os materiais de pintura e deixei tudo
arrumado. Quando fui fechar a janela, vi umas caixas no jardim – entregues pelo
correio – umas sete caixas cheias de carimbos de viagem.
-
Minhas coisas!
Que ótimo!
Colocar os móveis no lugar tinha finalizado meu passatempo, agora com as minhas
coisas lá em baixo eu perderia um bom tempo fuçando nelas.
Desci
correndo até a porta, mas parei na maçaneta, tinha um espelho próximo e pude
ver como eu estava horrível, de macacão branco, suja de tinta, com rabo de
cavalo meio desmanchado. Seria prudente uma garota sair daquele jeito? Era só
alguns metros até as caixas, mas alguém poderia me ver e... “Ah quem se
importa?”
- Se
liga garota! Ninguém se importa com você! – falei para mim mesma.
Deixei
de lenga lenga e fui pegar as caixas. Aos poucos levei uma a uma para a garagem.
Não olhei em volta para saber se alguém estava vendo – não me interessava –,
mas tive uma forte (quase enorme) sensação de que alguém me observava.
Com as
caixas na garagem pude fuçar nos meus objetos. Claro que a maioria me lembrava
meus pais, já que eles me presentearam com boa parte de ursinhos, acessórios,
porta-treco, porta-jóias... E tudo que me trazia a lembrança (e a saudade
imensa) deles, de certo modo eu não ligava, e mesmo assim, acostumar-se não é
supor.
Alguns
objetos eu levei para o quarto, outros permaneceram guardados, não tinha mais
nada a fazer – em relação ao quarto – então tomei um banho e coloquei roupas
limpas - uma calça jeans e uma blusa. Foi aí que lembrei.
- Eu
não almocei...!
Droga!
Tinha esquecido, e sem a ajuda do meu relógio intestinal ficava difícil! Não
perdi tempo. Corri para o microondas e esquentei meu almoço. O prato continha
macarrão com almôndegas, rosbife grelhado e batatas fritas. Lentamente comi 2/3
até meu estomago reagir estranhamente.
Minha
boca começou a salivar com um gosto estranho juntamente veio um impulso do
estômago. Pelo sim, pelo não, corri para o banheiro. Só tive tempo para chegar
ao vaso. Vomitei o que com tanto esforço tinha conseguido engolir.
Escovei
os dentes e voltei pra cozinha. Não conseguia entender o que estava acontecendo
comigo. Eu não conseguia comer e quando comia a força, vomitava! Apenas lembrar-se
de fazer refeições não ia ser suficiente.
Joguei
o que sobrou no lixo. Odeio desperdiçar comida, mas eu não tinha cabeça para
pensar nisso. Se me ocupasse e não pensasse na falha de meu organismo, eu
ficaria bem. Era nisso que eu queria acreditar!
O resto
do tempo eu matei organizando os DVDs em ordem alfabética, os jogos por ordem
de jogadores e as revistas por ordem de data "Que merda! De onde veio o perfeccionismo?"
Tudo para me manter ocupada, para não pensar na dor, na solidão... Essa
paranóia de contar o tempo já estava me enchendo também, logo eu atacaria meu
relógio pela janela.
Quando
me entreguei ao tédio, liguei novamente no canal de esportes e joguei-me no
sofá.
Finalmente
minha avó chegou. Era umas 18h30min – não olhei dessa vez – trazendo consigo
muitas sacolas, uma delas com nosso jantar, as outras continham livros,
cadernos, estojos, e muitos outros materiais de escola.
- Aqui
tem tanta coisa, é tudo necessário? – perguntei quando ela me mostrou.
- É
claro, você vai ver como o ensino aqui é puxado!
Ótimo
era o que eu precisava!
- Não
vai perguntar o que fiz o dia todo? – ela perguntou.
- Eu
não queria ser inconveniente, mas estou curiosa! – menti descaradamente.
- Bom
eu fui fazer sua matricula no Piner High School,
comprei os materiais e encomendei seus móveis!
"Uol!
Como ela é eficiente!"
- Meus
móveis?
- Sim! Ou
você achou que ficaria apenas com aqueles “móveisinhos”? Os pintores chegam de
manhã, e os móveis de tarde. Sábado já vai estar pronto!
- Hã...
Vó... Na verdade pode cancelar os pintores. Fiquei meio entediada e fiz a
pintura eu mesma, e por sinal adorei as cores... – menti de novo.
-
Espera! Você fez a pintura? – ela estava chocada.
- É, aprendi
com meu pai, o resultado foi ótimo...
Ela não
acreditou, mas por fim deu de ombros. E eu ignorei o nariz torcido dela ao
ouvir sobre meu pai.
- Bom,
se você gostou... Vai nos poupar tempo! Suas coisas já chegaram do correio?
- Já
sim, estão na garagem!
-
Espero que tenha se divertido hoje...
“Foi um
dos dias mais entediantes e piores que já tive!”
- Oh,
claro foi... Animador!
Sei que
menti descaradamente (de novo), mas a idéia era fazê-la sentir-se melhor.
Ficamos
acertando os detalhes da minha nova vida. Ficou combinado que ela me daria uma
mesada de 50 dólares por semana. Tentei argumentar e dizer que queria
trabalhar, mas ela descartou qualquer esperança minha "Nem pensar, já vai
ser difícil para você se acostumar com o ensino, não quero que você perca o ano
por não ter tempo de estudar!". Ela tinha razão, e discutir com ela não
adiantaria mesmo. Simplesmente me conformei – por enquanto – para o bem da
nossa convivência. Ela também me entregou um celular – nem moderno, nem
ultrapassado – útil demais para mim, para que pudesse me encontrar se eu me
perdesse.
Depois
do meu jantar forçado – que ficou mais fácil tendo que manter a compostura
diante da minha avó – dei-lhe boa noite e subi para o quarto com meus materiais,
dando graças a Deus por ter conseguido segurar o jantar no estômago.
Coloquei tudo no closet. Enrolei um tempo
lendo, outro escrevendo, outro desenhado... E finalmente dormi rezando para que
meu sonho não se repetisse. Claro que não adiantou, tive o mesmo sonho, com a
mesma intensidade, com a mesma dor, acordei no mesmo desespero, sob as mesmas
lágrimas... O mesmo terror! Mas dessa vez procurei abafar meus gritos para não
acordar minha avó...
Todos os capítulos estão nesse link.
quarta-feira, fevereiro 05, 2014
Livro | A Última Dor - Capitulo 2
Todos os capítulos estão nesse link.
A
viagem de avião foi lenta e entediante! Dormi a maior parte do tempo. Não comi
nada do que me ofereceram (mesmo que na primeira classe servissem coisas ótimas!). Minha
avó também não pareceu confortável, pelo menos ela comeu, mas não me perguntou
por quê não comi. Talvez morar com ela, não vá ser tão ruim como pensei. A
falta de atenção por parte dela pode ser favorável nesse lance de ser
invisível.
Saímos
do aeroporto e seguimos em um táxi. Sentei-me no banco de trás com minha avó. Foi
uma sensação estranha! Meu estômago embrulhou, e me deu um frio na barriga
seguido de um aperto no coração, minha cabeça rodou, ficou ligeiramente mais
leve e veio na minha mente flashes de todo o acidente. Nada que eu já não
tivesse visto. Isso me incomodou. Comecei a escrever em um caderno para ver se
ajudava, mas as lembranças não revelaram nada, só a mesma sequência: O carro, a
luz, o olhar... O aperto, a dor e a escuridão. Será que eu sentiria isso toda a
vez que entrasse em um carro? Ou seria questão de costume? Acho que não, já que
andei de taxi em Copacabana e não me senti tão mal.
Perdida
em devaneios (e conversas internas comigo mesmo), a viagem de carro foi menos
desconfortável. Pela janela percebi que o tempo estava agradável. Era fim de
tarde, o sol estava se pondo e a temperatura estava agradável. Um fim de tarde
quente e um começo de noite fria. Por enquanto seria outra coisa para me
acostumar, o clima! Que saudade do Brasil!.
Deixei boa parte das roupas para o calor e trouxe comigo as roupas mais quentes.
Minha avó disse que eu teria que ir as compras – isso ia ser bom – montar um
guarda-roupa novo, próprio para o novo país! Guarda-roupa novo eu posso aguentar fácil (mesmo as
lembranças do acidente não me deixando pensar em outra coisa). Mas não vou mais
falar português, não vou mais usar os mesmos tipos de roupas. O que mais? Com certeza
ainda vou adicionar muito a esta lista.
O carro
parou em frente a uma casa que no Brasil seria considerada como uma pequena
mansão. Não sei o que ela é considerada aqui e sinceramente, não estava a fim
de descobrir.
- Chegamos!
– disse-me ela.
Eu não
a ouvi muito nesses dias em que estivemos juntas, nossas conversas não passavam
de "Está pronta...?" "Podemos ir...?" “Cadê você?” por
parte dela e "Sim senhora!" "Estou sim!" da minha. Sem
contar às vezes em que ela reclamava do Brasil: "Não sei como conseguem
viver nesse país, tão quente, tão atrasado...". Ela não se conformava que 100%
do país não falasse inglês, o que a deixou desorientada. Que culpa os
brasileiros têm de ela não falar
português?
Não
tentei defender o país – por mais que eu quisesse, e teria muitos argumentos a
meu favor – não seria o modo certo de começar nossa relação. De uma hora para
outra essa completa estranha se tornou a minha única família.
Acho
que não descrevi minha avó, não é?! Bom... Ela é uma coroa até simpática. Desde
a morte do meu avô, – de acordo com minha mãe – passou a viver a vida de uma
forma mais reservada. Seu cabelo é preto, grosso, bate no ombro, liso com as
pontas para dentro – pelo menos foi esse o penteado que ela usou desde o
primeiro dia que a vi. Corpo pequeno e formas medias e proporcionais. Tem olhos
azuis escuros como os meus e parece ter muita classe ou o nariz bem empinado.
Fisicamente
até que somos parecidas. Tenho o mesmo cabelo preto, porém o meu é mais fino
com cachos abertos ondulados que vão das costas as pontas – herdei-os do meu
pai. Tenho os mesmos olhos e a mesma pele branca herdada da minha mãe, ou no
caso da minha avó. Nesse momento minha pele está ligeiramente bronzeada,
resultado de morar a beira mar (vamos ver até quando vai durar).
Descemos
do carro e aos poucos levamos minhas coisas para dentro – metade chegaria dia
seguinte por correio.
Por
fora a casa era branca com muitas (quatro) janelas de vidro, o jardim era
verdinho com algumas flores silvestres plantadas em formas retangulares e com
muitas luzes semelhantes à pisca-pisca espalhadas por todo ele. Não havia
portão. Apenas um caminho de concreto entre a grama e ao lado para a garagem, e
um retângulo de metal pendurado numa vareta – caixa de correio.
Por
dentro era amplo e aconchegante. Na sala havia uma lareira em mármore. As
paredes eram brancas, com lindos quadros pendurados, a maioria releituras de Monet
– minha mãe procurou me instruir de muitas maneiras, por isso os identifiquei. Havia
um sofá grande branco com almofadas vermelhas e um tapete felpudo para combinar
com a decoração. Dava para ver a cozinha de relance, aparentemente bem
equipada, toda em inox – não é um lugar que eu pretendia ficar para descrever
melhor. A escada era cumprida, com degraus brancos e um corrimão marrom –
combinando com as portas duplas de entrada. Havia aqueles tapetes de escada,
que só pegam o centro dos degraus na cor vermelha – combinando com as
almofadas.
Aparentemente
Dona Catherine tinha bom gosto e muita classe.
Percebendo
minha expressão e meus devaneios sobre sua casa ela perguntou.
-
Gostou?
Parece
que com ela não haveria diálogos muito cumpridos no máximo algumas palavras.
- Sim,
é agradável! – achei melhor não usar de gírias na frente dela, caso contrário
eu diria "Maneiro!"
Meu
comentário a agradou. Foi bom tela deixado contente. Mesmo que tenha sido por
um motivo banal.
Vendo
que eu não falaria mais nada, ela começou a fazer o papel de anfitriã.
- Bom
aqui é a sala, por ali é a cozinha – ela foi apontando – e a lavanderia. Alguns
dias por semana a faxineira vem para fazer a limpeza. Deixe as roupas sujas em
frente ao quarto, que elas serão lavadas e passadas.
- Sim
senhora! – como eu disse não me preocuparia com nada.
- Os
quartos são limpos uma vez por semana, então não deixe objetos pessoais jogados
para que não se percam...
- Na verdade...
– eu a interrompi – Não me importo de limpá-lo eu mesma!
Era o
melhor para mim. Não queria uma estranha mexendo nas minhas coisas. Além disso,
fazia isso no Brasil e não me importava. Isso me manteria ocupada e faria
lembrar-me da minha antiga vida.
Dona
Catherine encarou-me como se eu estivesse enlouquecido. Vendo que não era
loucura, respondeu:
- Como
quiser! – ela pareceu um pouco confusa, mas deu de ombros e continuou – o café
da manhã é servido às 7, o jantar as 19, o seu quarto é por aqui...
Ela começou
a andar e eu a segui. Confesso que não estava muito ansiosa para conhecê-lo (outro
item para minha lista). Por mais que eu tivesse trazido metade do meu antigo quarto
comigo (objetos decorativos, frufrus e bugigangas que adoro) não era a mesma
coisa. Não era o meu quarto. Não era minha casa. Não era minha vida! Pelo menos, não ainda.
O
quarto que ela me indicou ficava no fim do corredor. Não era gigantesco, nem minúsculo
– era maior que o meu antigo. As paredes eram brancas, com uma enorme janela de
vidro afundada em paredes grossas com a parte de baixo acolchoado para se
sentar. Um carpete bege clarinho cobria o chão, com duas portas que davam
acesso a outros lugares. Só havia uma cama de solteiro com uma colcha branca. Uma
escrivaninha com um abajur e uma poltrona estofada na cor bege mais escuro. Para
mim, pareceu um quarto de hóspedes.
- Eu
não tive tempo de prepará-lo – disse-me – tudo aconteceu muito rápido... Suas
aulas só começam na segunda – era quarta-feira primeiro dia do mês– então você pode mudar o
que quiser. Contratei uns pintores, eles virão na sexta. As tintas estão na
garagem tomara que goste das cores, se não podemos mudar...
- Não,
se a senhora as escolheu, então provavelmente vão me agradar!
Ela deu um meio sorriso. Senti-me culpada. Ela
me queria bem! Queria que eu me sentisse em casa, queria minha companhia, e eu
pensando mal, pelo amor, ela era minha avó! Óbvio que me queria bem! Não é?!
- Vou
deixar você à vontade. Vou lhe preparar
um lanche, como você não comeu no avião deve estar faminta – então ela notou! –
suba só com o essencial, o resto você pode trazer para cá quando terminar de
arrumar o quarto!
- Tudo
bem!
Ela saiu do quarto.
Minha
avó desceu para o térreo me deixando sozinha no meu novo quarto. Peguei a bolsa
que eu tinha subido comigo e tirei meu nécessaire de banheiro com escova,
pasta, xampu, sabonete e etc. Segui até o banheiro – que deduzi ser na outra
porta. Era agradável! Todo em azulejo branco, com rosas em azul bebê pintadas
alternando. Era amplo para quarto de hóspede. Tinha uma banheira e
um espelho que ia do teto ao chão. Pequenas luzes no mesmo tom de azul
espalhados pelo banheiro todo. Ao lado da banheira tinha pequenas prateleiras
com velas coloridas e vidrinhos perfumados – sais de banho. Como eu disse bem agradável!
Depois
de admirar meu banheiro – no Brasil o meu não era tão estiloso – deixei a
nécessaire sobre a pia e coloquei cada coisa em seu lugar. Depois de esvaziá-la,
voltei ao quarto e segui para meu novo companheiro, o closet.
Não era
grande coisa, um cômodo de 2x2m. De um lado tinha lugar para pendurar cabides e
dezenas deles vazios, do outro, prateleiras para colocar sapatos. Tinha uma
pequena luz de teto. Guardei as duas mudas de roupa que eu tinha subido – não
me dei o trabalho de pendurá-las, coloquei nas prateleiras mesmo – e fui para o
banheiro.
Eu não
percebi até aquele momento o quanto eu deveria estar cansada, levando em conta
a exaustiva viagem, a má alimentação e o estresse emocional. Mas por mais que
eu soubesse disso, meu corpo não dava grandes sinais de cansaço, assim como não
dava sinal de fome... Que ótimo! Outro problema para pensar depois: “Meu corpo está dando chiliques por mim!”
Essa certamente
seria uma preocupação para depois, com certeza iria passar em alguns dias, era
só o estresse da mudança de vida.
Despi-me
lentamente, sem pressa – esses dias já tinham sido apressados o suficiente. Coloquei
as roupas no cesto e encarei o espelho gigante. Meu corpo não tinha mudado com
toda essa tragédia. Nenhuma cicatriz ou marca – tinham ficados uns hematomas,
mas já estavam sumindo. Estava tudo no lugar, e esse era o problema! Se eu
continuasse com a falta de apetite, provavelmente ia virar anoréxica – a diferença
era que, eu não queria emagrecer.
Como
isso ia me incomodar! Sempre adorei meu corpo, não tenho nenhuma gordura fora
do lugar – devido à vida cheia de esportes que eu levava no Brasil – minha
cintura é fina, tenho as "curvas brasileiras". Perder, nem que fosse uma das medidas, não iria me agradar! Por
isso, se meu corpo não ia me lembrar de fazer refeições, eu o faria por ele! Era
só não se esquecer de comer, fácil! Esse problema não era assim tão complicado –
mas se persistisse eu procuraria um médico.
Desliguei-me
um pouco da minha aparência e fixei meu olhar nos meus olhos. Havia algo
errado. Algo em mim estava muito diferente. Meus olhos não estavam expressivos
e brilhantes como sempre foram... Não, eu definitivamente não era a mesma Liza
de antes, eu estava mudada, mas não para bem, eu estava com meu coração atolado
em dor, e isso se refletia claramente. Eu me conhecia bem o bastante para saber
que eu, não era mais eu mesma e não fazia ideia de como trazer a velha Liza de
volta.
Depois
da minha análise em frente ao espelho. Fui para o chuveiro. A água estava
perfeita, a temperatura relaxou meus músculos eu comecei a sentir um pouco do cansaço
– 1/3 do que eu devia estar sentindo.
Tomei um banho rápido e lavei o cabelo. Desliguei o
chuveiro e me sequei, quando eu quisesse demorar, usaria a banheira, afinal era
para isso que ela estava ali!
Vesti
minha calça xadrez duas vezes maiores que eu – própria para dormir – e minha
regata preta (vai saber em que mala estava meu pijama!). Penteei o cabelo e fui
para o quarto
Não tinha
televisão, então fui atrás dos meus livros – sorte que coloquei alguns na bolsa
– todos de autores brasileiros. Isso me
manteria ligada a minha cultura, ou talvez só dificultasse a minha habitação. Não
importa! Peguei um de Pedro Bandeira e comecei a folhear para passar a parte
que eu já tinha lido, foi quando minha avó bateu na porta – mesmo estando aberta, – trazendo uma bandeja. Fechei o livro e o coloquei embaixo do
travesseiro e dei sinal para que entrasse.
- Fiz
um sanduíche para você – ela começou – espero que goste de peito de frango!
-
Frango... É bom, obrigada!
Esperei
que a fome viesse, mas não veio. Que droga! Teria que comer sem fome, e isso não
é muito agradável.
Minha avó
colocou a bandeja na ponta da cama e começou a se retirar. Eu esperava – torcia
na verdade – que ela ficasse para ver se eu comeria, ou se iria gostar, isso me
daria um incentivo para engolir. Mas ela estava me dando espaço, talvez para
que não me sentisse pressionada, talvez para fazer outra coisa que ela tinha
planejado, ou porque ela não gostava de ficar muito tempo na minha presença. Não
me importava qual delas era! Tinha algo que eu precisava dizer!
- Hamm...?
Ela
virou para me olhar.
- Sim?
Era a
primeira vez que me dirigia diretamente a ela.
- Não
sei exatamente como te chamar...
Ela
pareceu pensar por um minuto.
- Bom,
sou sua avó não sou? O que os vizinhos dirão se você me chamar pelo nome como
você fazia no Brasil?
- Não
foi isso que eu...
- Tudo
bem, eu entendo. Chame-me de vó Ok?
-
Certo!
Ela virou-se,
mas eu intervir
- Hamm,
vó?
-
Diga...!
Eu
tinha várias perguntas para ela, mas pelo sim e pelo não fui ao ponto
principal.
- Só...
Obrigada... Por tudo!
Pelo
seu rosto passou muitas expressões. A que permaneceu foi a de afeto. Particularmente
eu nunca fui boa em ler expressões, mas depois do acidente fiquei muito boa
nisso. Acho que aguçou meus sentidos ou minha sensibilidade, não importa! (tenho
dito muito “Não importa!). Ler expressões era muito útil com a minha avó, considerando
que ela não falava muito. Seus olhos ternos se encontraram com os meus pela
primeira vez desde que a encontrei.
- Não
há de que Eliza é o meu dever de avó! Não precisa descer a bandeja amanhã a
empregada recolhe! Tenha uma boa noite!
Acenei
com a cabeça e dei um sorriso. Ela acenou com a cabeça e saiu
Se eu
estava confusa daquele jeito, ela também devia estar afinal à vida dela mudou
da mesma forma que a minha. Mais um motivo para manter as aparências – de ser a
forte, a equilibrada e a sofisticada – tudo que deixasse a vida dela mais
fácil, e a minha mais difícil!
Também
fiquei um tanto... Invocada com o fato de ela ter me chamado de
"Eliza". Quando me chamam formalmente, usam “Elizabeth”, os amigos
muito íntimos usam “Liza”. É a primeira vez que me chamam de “Eliza”! Então ela
não queria ser nem formal, nem íntima, ficando entre os dois – ela fez isso sem
saber que estava fazendo. Não a culpo, eu mesma me sinto estranha por chamá-la
de "vó" e não ia ser bom chamá-la de Dona Catherine – que é como eu
queria – como se ela fosse uma completa estranha. Só que ao contrário dela eu
não tinha uma alternância, que chatice!
Parei
de me preocupar com essa bobagem e comecei a... Degustar meu sanduíche
– se é que se pode dizer isso. Prometi a mim mesma que comeria tudo que ela
tivesse trazido o que quer que fosse. Por sorte era o sanduíche, suco de
laranja e um pedaço de melão.
Aos
poucos fui forçando e engolindo, o suco ajudou bastante. Levei o dobro do tempo
que eu levaria, mas eu consegui, comi 2/3 de tudo. Teria comido mais, mas senti
meu estômago estranho e achei melhor não forçar.
Juntei
a bandeja e levei para a cozinha. Eu poderia deixar no quarto como ela disse,
mas eu estava entediada. Coloquei a bandeja em cima do balcão de mármore preto
e lavei o prato e o copo – mesmo tendo notado a enorme lava-louça. Enrolei o
máximo que pude e então, subi para o quarto.
Queria
protelar a hora de dormir, então, resolvi dar boa noite para minha avó. Andei
em direção ao seu quarto – que ficava uma porta antes do meu. Antes que eu
batesse e pedisse passagem, fui paralisada por um choro, o choro dela, da minha
avó! A porta estava entre aberta. Espiei pela brecha, ela estava sentada numa
poltrona de costas para a porta, ao seu lado havia um porta-retratos com a foto
da minha mãe. Agora deu pra entender o motivo de choro, ela estava sofrendo
como eu, e tentava ser forte para mim, como eu tentava para ela e só se
permitia chorar as escuras. Era difícil vê-la sofrendo assim, afinal de contas,
ela era minha avó e eu teria que aprender a amá-la.
Eu não
precisava de mais sofrimentos agora. Já doía bastante o fato de nunca mais
poder ver meus pais, não precisava ficar ali ouvindo seu momento de fraqueza.
Voltei
de fininho para meu quarto e me joguei na cama. Não tinha mais nada para fazer
a não ser dormir – depois do que ouvi não conseguiria me concentrar em um
livro.
Desde o
acidente eu tinha dormido a base de analgésicos para a dor. Eles me entorpeciam
e eu dormia rapidamente sem sonhos, simplesmente apagava até de manhã. Hoje
seria a primeira noite sem eles e sinceramente, não estava ansiosa para saber
qual seria meu sonho – com certeza desagradável.
Uma
hora teria que dormir! E essa hora tinha chegado!
Apaguei
a luz e fechei os olhos. E sem pensar em algo, apenas sentindo a dor no meu
peito, cai em um choro baixo que aos poucos tentava lavar minha alma dessa
escuridão que agora me consumia.
Sem me
dar conta, fui caindo no sono, não procurei pensar em nada – só ia facilitar os
pesadelos – mas aparentemente... Não adiantou muito.
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Tenho na minha cabeça, muitas ideias, coisas que seriam bom compartilhar, historias, reflexões, experiências... O mal de ter uma cabeça tao agitada, é que vira e mexe ela se agita e muda de direção e meus projetos que antes pareciam tao interessantes dão lugares a outros e torna-se um ciclo vicioso. As vezes parece tao impossível por a confusão que tenho aqui em ordem. Nunca consegui organizar todos os meus pensamentos, tantas imagens, tantas ideias... Já perdi a conta de quantas vezes um desenho, um vestido, uma frase, uma historia remoê na minha cabeça ate eu colocá-la para fora, ou simplesmente sufocá-la com outra e mais outra... Já me sinto sufocada só de lembrar. Tenho que aceitar, que preciso de um espaço para por isso no papel, ou no teclado. Preciso tornar os pensamentos reais para desafogar esse fluxo interminável! Acho que eu simplesmente enlouqueci!.